O que aprendi com a morte do meu pai

pai
Compartilhe:Share on Facebook224Share on Google+0Share on LinkedIn0Tweet about this on Twitter

Saber conviver com a finitude é entender que o dia a dia precisa ser intenso e amoroso sempre. O processo de luto não é fácil, mas olhar para a dor faz parte do caminho.

Foi em 23 de agosto de 2015, um lindo domingo de sol, meus pais chegaram em minha casa para mais um daqueles jantares em família, e nas mãos, alguns exames. Minha mãe disse: “Seu pai não se sentiu bem, passamos em uma clínica 24 horas antes de vir para cá, fizemos alguns exames, a médica de plantão nos encaminhou para um especialista”.

Eu não sou médica, mas peguei rapidamente aqueles exames, olhei, e em um deles, era evidente: havia algo ali que não deveria ter. Não perdi tempo. Anotei o telefone do médico indicado, e na segunda feira, no primeiro horário, marcamos uma consulta.

No dia e hora marcada, lá estávamos nós: eu, minha mãe e meu pai. O médico examinou meu pai, pediu mais um monte de exames, que já fizemos na semana seguinte, e quando o resultado saiu, lá estávamos nós três outra vez. O médico olhou o exame com atenção e com muito cuidado, escolheu as palavras para nos explicar o que estava acontecendo.

Não vou mentir. Por um momento, quando ouvi o diagnóstico, fiquei desorientada, senti raiva, ansiedade, medo, preocupação, angústia. Quando olhei para o meu pai, percebi que ele estava me olhando, e em seu olhar, observei que ele estava tão desorientado quanto eu. Minha mãe, já chorava. Naquele momento pensei: “Antes de mais nada, CORAGEM”, pois a partir daquela data, nossas vidas não seriam mais as mesmas. Nossa desconfiança acabara de ser confirmada. Câncer, e em estágio avançado, este foi o diagnóstico.

Meu pai nunca soube, mas naquele mesmo dia, antes mesmo de sairmos da clínica, enquanto ele aguardava a secretária marcar nova consulta e exames, eu liguei para meus irmãos, confirmei o diagnóstico, e finalizei com a seguinte frase: “Antes de mais nada, CORAGEM!”.

Marquei com eles um café lá na minha casa, para às 17:30 horas daquele mesmo dia. Um pouco mais de duas horas, era o tempo que eles tinham para chorar, senti raiva, ansiedade, medo, preocupação, angústia e assimilar. Desta forma, durante o café, que seria o momento onde eu falaria do diagnóstico, e eles “fingiriam não saber”, todos estariam um pouco mais fortes, para neste momento podermos, juntos, dizer ao nosso pai: “Antes de mais nada, CORAGEM!”. E foi o que aconteceu.

Nos dias seguintes começamos por uma busca desenfreada por informações e especialistas em diversas áreas. Começamos o tratamento, que para nossa alegria, começou a surtir efeito. As festas de fim de ano vieram, estávamos todos felizes, esperançosos, determinados e antes de mais nada, corajosos. O fim do ano é sempre um bom momento para pensarmos um pouco sobre a vida, naquele ano, tínhamos motivos extras para refletirmos.

As coisas iam caminhando bem, os exames realizados no inicio de dezembro de 2015 haviam nos mostrado que o tumor já tinha diminuído pela metade. Entretanto, no inicio de fevereiro de 2016, meu pai nos confessou que os sintomas que ele sentia antes de iniciar o tratamento, haviam voltado. Refizemos os exames, e com muito pesar, recebemos a noticia de que o tratamento já não estava mais funcionando, e o tumor estava um pouco maior, comparado com quando descobrimos a doença.

Dali por diante, tudo complicou. Iniciamos um novo protocolo, que é como os especialistas chamam os medicamentos quimioterápicos, e em maio de 2016 o médico pediu para que eu chamasse meus irmãos. Ele queria falar com todos os filhos. Somos em quatro, e nesta consulta, minha filha que na época tinha 20 anos, também estava presente. Eu não queria, mas ela insistiu muito para ir, me disse que era importante para ela. E ali, ouvimos o que ninguém quer ouvir: “o organismo do seu pai não está respondendo a nenhum tipo de tratamento. Já utilizamos todos os tipos de protocolo de quimioterapia, fizemos radioterapia, e nada funcionou.”

A dor se instalou. Olho a minha volta, e só vejo angustia, medo, ansiedade e tristeza.

Nos meses que se seguiram buscamos a opinião de outros profissionais, falamos com outras famílias, e nada. Buscamos até novos protocolos que estavam sendo testados. Só restava nos concentramos nos cuidados paliativos para buscar melhoria em sua qualidade de vida.

Em outubro de 2016, dias após ter recebido alta do hospital, por onde ficou internado por quase duas semanas por conta das fortes dores que ele sentia, e onde os exames mostraram que o câncer já tinha se alastrado também para os pulmões, meu pai chegou perto de mim e disse que queria me fazer dois pedidos. E eu prontamente respondi “Pode fazê-los, pai.”

E estas foram as palavras dele: “Filha, você tem sido minha parceira. Tem cuidado de mim, da sua mãe, e ainda se preocupa em tranquilizar seus irmãos, e o resto da família. Você é forte. Eu sei que não vou viver por muito mais tempo, por isso eu quero te pedir duas coisas: a primeira é que eu quero morrer na Gamboa, na minha casa da Gamboa, não quero morrer em um hospital. Isso é muito triste. A segunda é que você cuide de sua mãe, do Hermes (meu irmão) e de suas tias Cotinha e Liquinha (é como ele chamava minhas tias, suas irmãs). Você pode fazer isso por mim?”

Com os olhos cheios de lagrimas e o coração cheio de tristeza, eu respondi: “É claro que sim, pai. Mas primeiro eu preciso conversar com os médicos para aprender os cuidados necessários, e para saber o que fazer quanto aos diversos sintomas e situações que poderão existir, aparecerem.”

Depois de um curso intensivo sobre cuidados paliativos no tratamento de câncer, o que inclui inclusive aplicação de morfina injetável, em novembro de 2016 me mudei com eles para a Gamboa. Isso inclui minha filha e meu marido. Realizamos na casa dos meus pais as adaptações necessárias para que ele e minha mãe ficassem bem instalados (minha mãe não saiu do lado dele nem por um instante). E passamos a morar ali.

Nas semanas que se seguiram fomos vendo, pouco a pouco, o homem forte e destemido, ficando mais magro e perdendo suas forças. Quando chegou o natal ele já andava com dificuldade, falava baixo e devagar, mas continuava a sorrir o tempo todo. No primeiro do ano, vi pela a primeira vez meu irmão mais velho chorar. O que desejar nesta virada de ano?

Na semana seguinte, veio a dificuldade em andar, comer sozinho, falar, sair da cama. No sábado, dia 14 de janeiro de 2017 era aniversário da minha cunhada, estávamos todos ali, mas meu pai já não conseguia sair da cama. E no dia 15, ele partiu. Ali, na casa dele, na Praia da Gamboa, como havia me pedido.

Embora sabíamos que este dia estava próximo, a dor que senti, não consigo descrever em palavras. Naquele momento eu só pensava que tinha realizado o primeiro pedido dele, agora faltava o segundo: cuidar daqueles que ela achava que “sofreriam mais”. E foi o que fiz. Me mantive forte, e me concentrei em ajudá-los a suportar a dor que se instalava em nossa família naquele momento.

Desde a descoberta do câncer, meu foco passou a ser o tratamento do meu pai. Eu estive presente a cada consulta, cada exame, cada quimioterapia e cada sessão de radioterapia. Suspendi minha agenda de palestras, cumprindo apenas com aquelas que já estavam marcadas, e passei a me dedicar exclusivamente à família. E no final, não podia ser diferente.

O impacto de uma doença como o câncer não afeta apenas o paciente, mas estende-se a todo o universo familiar, impondo mudanças, exigindo reorganização na dinâmica familiar para incorporar, às atividades cotidianas, os cuidados que a doença e o tratamento do paciente exigem.

Meu pai era um homem humilde. Um pescador que abandonou sua terra natal, uma vila de pescadores chamada Praia da Gamboa, situada a 15 Km do centro de Garopaba/SC, com um único propósito: que seus filhos pudessem estudar e ter mais oportunidades. Sempre sorridente, olhava continuamente para as soluções e não para os problemas, ajudava a todos, gostava de plantar, pescar, ficar com a família e jogar dominó com os amigos.

Sinto saudades do meu pai e gostaria de discutir com ele questões sobre a vida e a morte. Quem vai me dizer justo o oposto do que eu espero ouvir? No dia seguinte ao enterro, levantei da cama sentindo uma tristeza profunda. Como acordar num mundo em que meu pai não está mais presente? Só ele mesmo poderia responder a essas perguntas. Provavelmente, ele diria algo como: “Você vai dar conta do recado, para morrer, basta estar vivo”.

Ainda recordo com frequência, as conversas que tínhamos, principalmente quando meu pai estava internado no hospital. Ele gostava de falar sobre as coisas da vida: o amor, a amizade e a família que conquistou. Falou sobre minha mãe e o amor infinito que sentia por ela, e como ela havia segurado firme ao lado dele todos os percalços que eles haviam passado ao logo dos 42 anos de casados. Questionou se nunca mais ia ver seus netos. Disse com orgulho a um enfermeiro que eu era escritora. Disse que eu estava bonita. Chorou ao ver meus sobrinhos em uma transmissão por Skype. Me contou sobre as dificuldades que enfrentou quando era criança, e de como ele e minha tia Cotinha aprontavam na infância.

Olho no espelho e vejo meu pai em mim. No nariz, na cor dos olhos, na coragem, na determinação em fazer o que é certo. Na força de quem contradisse todos os prognósticos médicos e melhorou quando era para piorar, e piorou quando era para melhorar. Meu pai e a liberdade de ser quem se é. Meu pai e suas limitações. Meu pai me mostrando que a vida é o que ela é. Sempre lutei para me tornar uma mulher livre e ao mesmo tempo comprometida com a vida e com aquilo que os poetas chamam de Amor. Afinal, fiz assim.

Meu pai me ensinou a lutar por uma educação completa da vida. A amar o próximo, a ser ética e verdadeira em minhas condutas. A ser feliz com as pequenas coisas da vida, a lutar pelos os meus sonhos. Vai daí, que é a isso que chamo de “dever cumprido”. A sensação de que não está faltando nada”. Te amo, pai.

E antes de mais nada, CORAGEM!